domingo, abril 09, 2017

Dos deslocamentos

Mudei de salão para o seu governo. Enjoei de pintar as longas conversas madeixas. Os fios brancos surgem obscenos e isso me garante algum efeito de maturidade responsável num mundo onde aparência de juventude é sinal de patetice. Minha geração não ajuda, é verdade. Depois, também, Vania oitodias casou e só vai ao salão quando quer. Faz o tipo de que casamento é emprego e deixa órfãs minhas sobrancelhas ao seu bel-prazer. Aqui na cidade, depois de algumas experiências grotescas, descobri um tesouro. Valeu à pena insistir. A manicure de nome Rosana, embora casada, diz pro marido que chegou mais uma cliente no salão e desce com a cabeleireira pra rua sete tomar um latão antes de ir embora. Ri e me ensina sobre saber faltar na relação pra apimentar a vida de casada: "Gata, homi não 'custi' (do verbo curtir) mulé que fica na cola". Ela é mineira e toda semana me manda um whatsapp "Gata bora marcá unha?". Na foto do perfil que dá a ver às suas clientes, ela faz uma pose sensual e coloca os seguintes dizeres: "Não inveje o meu sucesso. Corra atrás do seu". Rosana diz que não pensa em ter filhos. É feliz no casamento, o marido não amola. Diz isso com a maior cara de deboche do mundo. E ri. Ri muito. Sempre. Não reclama por ter muitas "crientes": "Gata eu dou é graças a Deus". Tão diferente de mim ela é. Ultima vez levei de presente uns esmaltes escandalosos importados que ganhei e que nunca vou usar. Esse presente foi de alguém que não tem muita intimidade comigo, naturalmente. Rosana se surpreendeu com meu gesto e respondeu amorosa: "arrasô, gatona, próxima vez, sombrancelha é por conta da casa". Ela é do tipo que reconhece a alteridade e é generosa também. Tão parecida comigo. Vania oitodias, que nunca me manda whatsapp, outro dia ressurgiu das cinzas, com um português correto, me chamando para um café no salão. E só. Não teve nada de gata, bora marcá unha. Acho que essa mudança se afina com a minha atualidade: tenho escolhido gente mais honesta, de papo reto, sem volta no mundo pra dizer o que pretende. Me culpo um pouco por me dirigir para caminho tão objetivo, direto, talvez, masculino. Mas logo me desfaço do pensatório e respondo de volta: "Bora, gatona, mesmo dia e horário, viu?". Ela responde que tá combinado, gata, com emoji de gatinha, bem literal, sentido denotativo ganhando a gama rosa com força. A vida é bem mais simples com Rosana.

miércoles, marzo 08, 2017

Duplo corte

- Então, me conta...
- Preciso te falar uma coisa muito séria hoje...
- Diz...
- A rede social é minha femme fatale
- Como assim?
- não tá ligada? Femme fatale, filme noir coisa e tal...
- não
- achei que você sabia dessa coisa...
- não, não sei. Me ensina.
- Da femme fatale?
- sim
- são aquelas mulheres nos filmes noir que desviam os caras, pervertem os propósitos deles, deixam eles loucos e tal...
- e da onde você tirou que eu sabia essa coisa?
- do cinema?
- não...digo sim...Não, digo da femme fatale!
- quem tá em análise aqui? (risos)
- boa pergunta! Até a próxima! (risos)
- Até!

viernes, marzo 03, 2017

autre-biographie


"Todo verbo que é forte se conjuga no tempo"


Ele esperou eu ficar sozinha no mar. Foi quando meu irmão saiu de perto, me chamou pelo nome e perguntou se era eu que tinha ligado para casa dele perguntando por uma tal de Amanda, fingindo ser um trote. Eu disse que sim, que precisava ouvir a voz dele naqueles dias, mas que isso já fazia tempo. Não quis saber como eu descobri o telefone, mas perguntou se eu ainda tinha interesse na voz dele ou se era uma coisa daquela época. Eu falei que precisava pensar um pouco, pois o tempo já havia passado, que eu ponderaria e falaria com ele depois. Ele consentiu. Me deu o tempo que eu precisava. Na sexta eu voltaria para a casa da praia com a resposta, mas eu não apareci. Passei os dias que se seguiram na cidade, ouvindo o disco novo do cidade negra que meu tio do Rio trouxe de presente no natal de 1996. Eu me sabia apaixonada e não quis executar logo o que se daria dali a um mês. Precisava da distância, precisava alimentar aquela febre no meu corpo de adolescente durante tardes infinitas. Eu ouvia o disco no repeat e pensava nele, na ideia que eu fazia do que ele era, ideia que se espatifou logo no primeiro dia de aula quando ele foi estudar na minha escola e mudou da oitava B para a oitava A e escolheu uma cadeira ao meu lado. Ele competia com as aulas que eu tanto me entregava. Era impossível estudar diante daquela presença tão devastadora. Tive ódio. Terminei ali mesmo, da pior forma, meu romance de verão. A gente podia ter namorado. Podia ter sido amigo, pelo menos, mas eu encaminhei tudo sob o peso da inibição de uma menina que ia dar o primeiro beijo. Era o primeiro beijo dele também, mas acho que ele nem sofreu. Eu sim por achar que ele estava machucado. Eu precisava me manter sofrendo de amor como fiquei durante o ano anterior, entre um verão e outro, sem vê-lo, porque a gente morava longe, só se via nas férias e eu não sabia o nome dele, nem onde morava e nem o telefone. Depois dei meu jeito. 


Fico pensando em procurá-lo qualquer dia desses e reparar qualquer possível dano, o dano por ter tido apenas 13 anos e não saber encaminhar aquelas coisas, como não sei muito bem até hoje, como não devia estar culpada agora por depois de tanto tempo ainda amar no molde febril. 

Embora de lá para cá muita coisa tenha mudado - ele se casou, teve filhos, se tornou um empresário bem sucedido do ramo da construção e nem deve se lembrar de mim - eu ainda não me perdoei por ter sido uma menina de 13 anos com toda a dificuldade que é ser uma menina de 13 anos.

Se leio esses diários onde escrevi a passagem da minha infância para a adolescência com direito à menarca, visceralidades, descrição das ligações para a rádio da cidade de madrugada onde eu pedia música para ele sob um falso nome, músicas de Toni garrido, poesias, colagens, brincadeiras de amor real, onde através da data e do meu nome e do dele eu conseguia extrair a porcentagem de amor do dia, se registrei isso tudo para o futuro, como eu mesmo profetizei na contracapa de cada caderno (cinco completos no total) era só para me lembrar, hoje, que é na falta que consigo caminhar melhor, é quando reconheço minha vulnerabilidade e me abro ao outro que evoluo. É quando me sei curiosa e incompleta que posso abrir matas fechadas e caminhar com alegria. É para isso que escrevia, para me constituir em companhia pro que me tornei hoje, eu sabia de algum modo que precisaria de minhas próprias palavras num tempo futuro, espécie de bálsamo, para quando eu estivesse perdida experimentando outras versões de mim. Como faço agora com insistência, nesse caderno virtual, imprimido meus códigos secretos que só eu saberei decifrar em uma futura passagem difícil. Elas existirão. Viver é dureza.

Nesse exato momento, exerço te adotar de novo e mais uma vez. Sobreviva ao que for. Volte sempre que precisar. Tem café, o chá de limão que você tanto gosta e o opióide para sua dor de coluna. Os lenços ao alcance da mão. Ninguém vai te julgar, se você se emocionar com essas falsas memórias.

sábado, febrero 11, 2017

nada de novo no front

Em todos esses dias de guerra, sonho com o amor. Por mais que você me mande esses vídeos de linchamento, continuo meus sonhos. Por mais que os "intelectuais de internet" veiculem narrativas irresponsáveis na rede, performada por esses senhores gestores de ódio e violência, eu sonho com o amor. Você que nem experimentou a ditadura, ressente-se dela, parece desejar uma causa desse tipo para viver. Eu ainda sonho com o amor. Numa noite a gente gira na roda gigante, na outra passeamos ao som de "enquanto seu lobo não vem", do Caetano. Há noites de sonhos impublicáveis, mas nem por isso, menos bonitos. Eu vou sonhando com amor. Nenhum pesadelo esses dias. Sou uma máquina de sonhar amor. Minha manifestação é essa: não estou muito preocupada com quem está certo ou errado. Sou completamente surda à barbárie. Só escuto o romance que publico em mim todos esses dias.

jueves, febrero 02, 2017

A letra(dona)

Eu achava que você era sovina porque só havia me dado uma letra. Eu pedia, reivindicava mais. Chorava sem parar até me faltar o ar e sentir dor de cabeça. Dizia que você podia ter me dado outras coisas, que todas as mazelas da minha vida advinham da sua falta de generosidade, que eu ia morrer de tanta falta de amor.

Decidi me separar de você e das dívidas que você tinha comigo.

Com a única letra que você me deu,  escrevi passagens melancólicas, batalhas, conquistas, perdas, danos, chefias injustas - porque a vida é injusta mesmo - namoros, amigos, inimigos, paranoias, devaneios & afins, prazeres, dores.

Derivei dela, dessa mesma letra, uma criança teatral, encantadora, uma filha trabalhosa com problemas de contemporaneidade, uma namorada companheira, divertida, aventureira, uma estudante questionadora, uma aluna com rapidez de raciocínio, uma flautista que se aposentou aos vinte, uma estagiária envolvida, uma analisanda adorável, uma paciente teimosa, uma chefe tão terrível quanto as que teve, uma mulher amorosa, atenciosa, uma dona de casa exemplar - com toc de limpeza e organização como deve ser, você sabe, as bactérias na bucha da pia e o vinagre e o bicarbonato para manchas difíceis -, uma psicanalista despojada, uma professora de literatura habilidosa que odeia romantismo mas sofre disso, uma escritora inibida, uma visceral que não sabe fazer luto de seu pathos ou pelo menos se perdoar por isso, uma amiga que acorda as três da manhã com o celular e escuta você bêbada chorar a perda de um amor, uma pessoa que não sabe lidar com o desvio de olhar, outra pessoa que aprende a lidar com o desvio de olhar, uma histérica engajada com as causas sociais -naturalmente -, uma italiana abrutalhada, uma espanhola sedutora, uma brasileira inconformada com a ignorância de seus compatriotas, nostálgica da terra perdida, uma mosaicista em potencial para piscinas quebradas sem ninguém solicitar seus serviços, uma...

Enfim, alguém que aprendeu a fazer do limão, uma limonada. Tudo isso com a única letra que você me deu.

Obrigada.

lunes, enero 16, 2017

O lado que você não sabe

Depois do acidente de Ana Martins Marques voltei correndo para casa.
Eu queria estar sozinha aqui como estou agora.
Eu queria fumar um cigarro que estava na caixa de café.
Fumei um e fumei um outro:
Um para o poema
e o outro para a fragilidade.
O lado bom de não ter muita defesa é experimentar as coisas bonitas da vida te atingindo frontalmente.
Não falemos do lado ruim.
O lado ruim você já sabe.

domingo, enero 01, 2017

Impublicáveis XVI

A primeira noite do ano começara para mim sem felicitações cafonas no último que ocorrem pontualmente às 00:00, sem pirotecnia, sem aquela ilusão toda montada pelos homens.

Preparei a ceia sozinha e sentei à mesa com meu pai. Éramos só os dois. Não tive medo de encará-lo bêbado, desprovido de sua máscara de pai, humano. 

Sabia que ele se repetiria durante toda a noite, mas não me cansava, ainda. Seus assuntos, tão inofensíveis, me fariam pensar que talvez eu não me interessasse tanto por aquela história num outro contexto. Rimos juntos de trivialidades. Em seguida, recolhi a mesa, antes dele autorizar. 

A distância me fez esquecer o quanto ele se demorava com as reflexões do pós jantar: a infância miserável, as aulas de química que ministrava em cursinhos de classe média para viabilizar seu estudo superior, a empresa que o constituiu na medida em que era constituída por ele e, por fim, seu desinteresse generalizado pelas coisas da vida. Sempre, religiosamente, nessa ordem.

Tive vontade de apressá-lo e dizer para ele acordar, que a vida não esperava ninguém, que ele recomeçasse esse ano mesmo, recomeçasse ali, caramba, sem grandes cerimônias. Eu já estava quase perdendo a paciência, mas ele permanecera tão teimoso em suas verdades que se eu fizesse qualquer alusão ao assunto, certamente abandonaria mais um ano com o único intuito de me contradizer, então não disse nada. Dei a ele o meu silêncio. 

Aguardei mais um momento e o sono veio cedo como um artifício providencial. Me despedi com ele dizendo que ainda ficaria mais um pouco. A informação me chegou sem que eu perguntasse nada - e existiu nesse dito uma metáfora que só uma filha amorosa poderia decifrar. 

Beijou a minha testa, disse que me amava e agradeceu o jantar. Não mencionou em nenhum momento a minha mãe, para o meu espanto. Parecia pleno. Estava alto, mas manteria o equilíbrio necessário para encher a taça de vinho. Sustentaria um embate com a bebida madrugada adentro, assunto masculino sobre quem derruba quem: era ele ou o vinho. Não cabendo ali, me retirei sem maiores delongas. 

Aceitei o sono me vencer. Meu passo a mais consistiria, depois entendi, no aprendizado que versa sobre não entrar em embates inúteis, tendo em vista que a grande guerra igualaria a todos. Todos, em absoluto, sairiam perdedores e, depois, naquela altura de minha vida, as guerras já me entediavam. 

Na cama alguns sonhos impublicáveis me aguardavam, outras batalhas.